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"Ultrapassa-te a ti mesmo a cada dia, a cada instante. Não por vaidade, mas para corresponderes à obrigação sagrada de contribuir sempre mais e sempre melhor, para a construção do Mundo. Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo".

Dom Helder Câmara


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Chica do Rato, Chica do Rato - Por Dr. Jose Bitu Moreno.

Foto de Varzea-Alegre - Anos 60. Enviado por Raimundo Wiltom Bitu Moreno. Clic na foto, amplie e localize-se.
Cronica do Dr. Jose Bitu.

Chica do Rato, Chica do Rato. As crianças seguiam-na gritando. Ela se virava desfiando um rosário de imprecações. Novo revide das crianças e ela seguia resmungando com a voz rouca, falando consigo mesma, equilibrada em dois ágeis cambitos, vestida em andrajos coloridos, com lantejoulas, brilhos e os penduricalhos que ganhasse ou que por acaso achasse. Os braços finos carregavam pulseiras que tilintavam, do cabelo brotavam laços, tiaras e outros adereços, como uma medusa do bem, estilizada, ou como uma princesa, a princesa das ruas de sol, dos dias de estonteante claridade, dos borrifos brancos nuvens espalhados no céu azul.

Seu pai se chamava Abel, sua mãe, Maria, Maria de Abel, loucos varridos. Maria escrevia cartas para Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil, cobrando dívidas imaginárias ao erário. Abel tinha um reino, no seu reino existia uma pedra, “A pedra de Clarianã”.
“- Eram na realidade loucos ou seres desse outro reino?”
“- Devia o nosso presidente àquele reino?”
Eles moravam num quartinho, cedido por um senhor caridoso da cidade, no beco de Seu Dirceu, onde um dia Maria de Abel foi encontrada morta, sozinha e abandonada.
“- Que semelhança havia entre as Marias?”
“- A de Bel, morreu esquartejada pelo machismo brutal do mundo. A de Abel, foi vítima do preconceito e da pobreza, que também tantas mulheres dizimou, escravas e sem emprego.”
Tinha mais dois filhos, além de Chica, José e Levi, o primeiro normal do juízo e o outro igual a Chica.
“- Chica, Chica do Rato, Chica do Rato.”
Ela seguia em frente, pura alegria e movimento, até entrar em outra casa. As senhoras, suas madrinhas, lhe abriam as portas, todas a queriam, aquela louca mansa, alegre, como que saída de um outro mundo. Ela comia aqui, jantava acolá, ganhava de uns sapatos usados e de outros colares de pedras falsas, mas deixava alegria em troca, ou até mesmo a satisfação do outro se sentir são. Ainda hoje está descendo pelas ruas de pedras, vestida como uma princesa, incandescente de sol, e puxando um cordão de crianças: Chica do céu. Princesa do “Reino de Clarianã”. Outro era o louco cantor. Ficava trancafiado como se numa jaula, na verdade um anexo da casa dos pais, de grossas paredes e barras de ferro ao invés de janelas. Dava para uma estrada de terra, que margeava por trás da igreja e da rua principal, tendo de um lado os fundos das casas, quintais de muros altos ou abertos, entregues às urtigas, calangos e lagartixas, os monturos. Do outro lado da estrada, um grande descampado dividindo a cidade.
Ele cantava em voz de tenor músicas antigas e tristes, sobre amores desfeitos e outras dores da vida. Dizia-se, era muito bonito. Quando saía pela rua, nos dias de mansidão, trazia os cabelos lisos penteados para trás, sob efeito do gel “Brilhantina”, muito usado na época, e vestia um paletó branco, com cravo na lapela. Dizia-se ter sido aluno brilhante, tendo já alcançado salvo engano os bancos da faculdade, seria um doutor, quando a imprevisibilidade do destino o traiu e o que era para lhe abrir as portas do saber, os livros, levaram-no ao turbilhão misterioso da loucura.
“-Cuidado com os livros, quem muito ler, quem muito estuda, pode enlouquecer-”
Assim se falava, comentando o seu caso. Perdeu-se pois nos labirintos que a sabedoria esconde, sendo cuspido depois como um louco.
José Bitu Moreno

17 comentários:

  1. Prezados amigos do Blog.

    O Blog do Sanharol tem a honra de postar essa cronica do Dr. Jose Bitu e a foto do Wilton Bitu para que seus leitores, especialmente os daquela geração dourada, voltem ao tempo e vejam como era nossa cidade, a epoca, e como viviamos em comunidade. Dr. Jose Bitu! Descrever a historia de Chica do Rato com tamanha precisão não é facil. O Blog conta com duas postagens a respeito, muito bem escritas por Nanum, nosso querido Mundim do Vale que tem transformado esse blog num ponto de pesquisa de nossa historia e nossa memoria. Agradeço a contribuição e vou passar emails para aqueles amigos mais proximos e que tambem pertenceram aquele periodo de tempo para que eles tenham a oportunidade de ler Chica do Rato, Chica do Rato.

    Abraços a todos.

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  2. Muito bom reviver esse tempo de uma forma muito especial escrito pelo primo Dr. José Bitu. Na verdade Chica do Rato foi na época uma personagem muito importante, o divertimento das crianças que não galgavam de lazer e procuravam a nobre louca para ouvir dela espetáculos, e palavrões. Acredito que a outra pessoa que ele cita é o grande Anchieta, que gostava de cantar tocando em seu violão: “guardei um queijo em cima de uma mesa, quando olhei me faltava um pedacinho, era um colega que não pagava quarto, era um rato que morava no buraquinho, tudo isso me aborrece, tudo isso me arrelia, arranjei uma morena para ser minha companhia. Dr. José Bitu, você é um cidadão cosmopolita, orgulho de nossa família, um grande abraço extensivo a todos os familiares.

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  3. Morais:
    Acabei de ver esta maravilhosa postagem,uma excelente cronica.
    Aqui no meu quartinho escuro,com meu queijinho e um ratinho companheiro,lendo e vendo esta bela foto,imagine o tamanho da tortura.
    Um abraço para toda a familia.
    BITU,BITU, BITU.

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  4. MUITO BOA A POSTAGEM REALMENTE NOS FAZ REVIVER BRILHANTES MOMENTOS DA NOSSA CIDADE. PERGUNTARIA PRA O DR JOSE BITÚ. CONHECI UM LEVI, MEIO LOUCO MAS ESSE TAMBÉM ERA CALMO E ME PARECE VICIADO NA CACHAÇA.. AS PESSOAS O CUMPRIMENTAVAM, ELE FALAVA É O LEVI ACAVALO NUM BEM-TE-VI. ESSE É O MESMO? NÃO CONHECI O MESMO PRESO E CANTANDO IGUAL A ANCHIETA NÃO. E QUANTO A CHICHICA ERA ASSIM QUE MINHA MÃE E TODOS DA NOSSA FAMÍLIA A TRATAVA. ERA TODAS AS MULHERES QUE ELE CHAMAVA DE MÃE? CERTA VEZ EU ESTAVA NO CAFÉ DE MAMÃE (PARA OS QUE NÃO SABEM ERA ASSIM QUE ERAM CHAMADOS OS RESTAURANTES ANTIGAMENTE) E ELA A CHICICA COM UMA VASILHA PARA PEGAR COMIDA CHAMANDO A MINHA MÃE DE MÃE E EU PERGUNTEI A MINHA MÃE PORQUE QUE ELA NÃO MORAVA LÁ EM CASA??

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  5. João, meu primo e irmão, gosto muito quando escreve, sempre aprendo um pouco mais. Realmente o outro era o Anchieta. Essa letra que você postou era de uma música que ele cantava ou declamava? Muito boa essa colaboração. O que você sabe sobre os outros loucos?
    Um grande abraço,
    Bitu

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  6. Caro Cláudio,

    Obrigado por suas palavras.
    Além de Chica do Rato, o outro era o Anchieta. Não me lembro bem do Levi, mas é interessante o que escreveu sobre ele e sobre Chica do Rato. Assim ganhei mais material.
    Abraços
    Bitu

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  7. Caro Morais,
    Muito obrigado pela postagem.
    Preciso ler o que Nanum escreveu sobre Chica do Rato. Como posso encontrar?
    Abraços,
    Bitu

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  8. Caro Morais,
    gostaria que modificasse alguns detalhes da postagem.
    A pequena crônica começa com as crianças gritando: Chica do Rato, Chica do Rato. Pode ficar também como título, mas é preciso que ela se inicie com esse brados, para dar mais sentido.
    Ao final do que falei sobre Chica do Rato, gostaria que fizesse um parágrafo para a parte do Anchieta.
    Talvez vc já tenha recebido assim, um pouco desconfigurado, mas se der para modificar agradeço.
    Grande abraço, Bitu

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  9. Caro Morais e Dr. José Bitu...

    Muito bom o texto e a foto tazida na postagem. Na foto da pra ver a caíxa dágua e o alto da Prefeitura, pertin de casa. Eu tomei emprestada a Pedra de Clarianã de seu Abel e a transformei em um lugar de fantasia e descontração...
    Forte abraço e parabens....

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  10. Prezado Dr. Jose Bitu.

    Para que possa lhe enviar os textos do Nanum, basta que me envie o seu email para moraisenair@hotmail.com

    A. Morais

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  11. ...Não achava ela tão calma, pois tinha medo, não passava de forma alguma em uma rua onde ela tivesse...mas é até porque só a via de vez enquando. Ela sempre muito elegante com suas roupas, saias compridas e seus enfeites,sapatos, gargantilhas e pulseiras e suas presilhas no cabelo, não saia sem sua maquilagem... Era até exemplos de elogio de beleza para os outros!!! ...

    Quando criança ia a festa de agosto, comprava pulseiras e gargantilhas de ouro(ouro da festa de Agosto, aquele que era "DOURADO" de manhã e a tarde perdia a cor)Chegava em casa se enfeita toda e perguntava a papai:

    -Estou bonita? E ele respondia.
    -Sim,igual a Chica do rato.

    É isso aí, Chica do rato

    Magnolia

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  12. Dr. José Bitu, essa música ele sempre cantava com o violão e também muitas vezes recitava. Tinha também o Valdimiro, que utilizava como padeiro uma lata de doce e andava sempre correndo pelas ruas. Outra grande figura era Fadaial, que andava sujo apanhando ponto de cigarros pela rua. O nobre amigo Jubaia, que carregava os lixos dos cafés da cidade. Margarida bate no bandeiro, Saci cilha grande rezadeira, Tuiba Costinha, Antonia de Barro, Carro Boi, Antonio do Vijo, e muitos outros que no momento me foge da memória.anist

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  13. Nobre primo esqueci de Valeriano que foi uma viagem numa cidade chamada Lardéia em um avião só com uma asa. Nesta viagem ele gastou cinco pares de chinela curulepe com o solado de pneus somente encostando o pé no piso do avião. Veja o quanto essa cidade era longe.

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  14. Primo João,
    Muito obrigado pelo material que me mandou, à respeito da nossa história.
    Grande abraço,
    Bitu

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  15. Carissímo Dr.José Bitu, excelente matéria sobre pessoas tão queridas da rica história de Varzea -alegre, essa saudade é minha; foram muitas as vezes que acompanhei da janela da casa de Niete Ferreira Chica do Rato varrendo o quintal e juntando as tralhas que lhe interessavam. Era assim mesmo a rotina dela numa casa e outra fugindo dos insultos das crianças que a deixavam ainda mais sem juízo. Parabéns pelo resgate da nossa história.

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  16. Olá Fátima,
    Fico feliz que tenha se encontrado nesse nosso passado comum.
    Grande abraço,
    Bitu

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  17. Nossa que lindo..amei a história de chica do rato...conheci ela e muito mas em compensação tinha muito medo dela qdo criança e além do mais qdo a gente começava a teimar com a mãe ela dizia vou chamar chica do rato...nossa logo tudo se normalizava pois o medo era maior...parabensss a Dr.José Bitu pela postagens tão linda e verdadeira acontecida em Várzea Alegre-ce...ab

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